domingo, 11 de setembro de 2011

ODISSÉIA


A pergunta já é um clássico: onde você estava? o que você fazia no dia 11 de setembro de 2001? Fazer ou estar não condiz com a resposta que utiliza paralisar como verbo de ação.

O mundo e cada um de nós foi brutalmente atravessado por aviões. Estávamos em colapso. O mundo em uníssono entendeu a palavra calamidade.

Naquele dia Deus apagou as fronteiras e nos tornamos gêmeos das torres, tememos uns pelos outros e ruímos juntos na dor iminente. Fomos todos sequestrados. Fomos todos mortos.


















Carlos Drummond De Andrade in Contos Plausíveis

O amor foi à função, bebeu, cantou e bailou, estava muito excitado, tiveram de levá-lo para casa e prendê-lo no quarto para que repousasse. No dia seguinte o amor cantou e bailou sem beber, e era sempre primavera nos seus modos e falas. O amor viajou, voltou, fazia piruetas, trocadilhos, esculturas, criava línguas e ensinava-as de graça. Todos o queriam para companheiro, paravam de guerrear para abraçá-lo, jogavam-lhe moedas que ele não apanhava, gerânios que ele oferecia às crianças e às mulheres. O amor não adoecia nem ficava velho, resplandecia sempre, havia quem o invejasse, que inventasse calúnias a seu respeito, o amor nem ligava. Cercaram sua casa de madrugada, meteram-lhe a cabeça num saco preto, conduziram-no a um morro que dava para o abismo, interrogaram-no, bateram-lhe, ameaçaram jogá-lo no precipício, jogaram. O amor caiu lá embaixo aos pedaços, mas se recompôs e foi preso outra vez, aplicaram-lhe choques elétricos, arrancaram-lhe as unhas, os dedos, o amor sorria e quando não podia mais sorrir gritava numa de suas línguas novas, que não era entendida. E desfalecendo voltava à consciência, e torturado outra vez, era como se não fosse com ele. Quebraram o amor em mil partículas, e ninguém pôde ver as partículas. Foi sepultado normalmente no fim do mundo, que é para lá da memória. Ninguém o localizou, mas todos falavam nele, o amor virou um sonho, uma constelação, uma rima, e todos falavam nele, e ressuscitou ao terceiro dia.







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