Nesta manhã do ano de 2007, um violinista deu um concerto numa estação de metrô da cidade de Washington.
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quinta-feira, 23 de agosto de 2012
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
VIAJE E CONTE CAUSOS
Fernando conta com o corpo inteiro, e não apenas com palavras, e pode se transformar em outra gente ou em bicho voador ou no que for, e faz isso de tal maneira que depois a gente escuta, por exemplo, o sabiá cantando num galho, e a gente pensa: Esse passarinho está imitando Fernando quando imita o sabiá.
Ele conta causos da linda gente do povo, da gente recém-criada, que ainda tem cheiro de barro; e também causos de alguns tipos extravagantes que ele conheceu, como aquele espelheiro que fazia espelhos e se metia neles, se perdia, ou aquele apagador de vulcões que o diabo deixou zarolho, por vingança, cuspindo em seu olho. Os causos acontecem em lugares onde Fernando esteve: o hotel que abria só para fantasmas, aquela mansão onde as bruxas morreram de chatice ou a casa de Ticuantepe, que era tão sombreada e fresca que a gente sentia vontade de ter, ali, uma namorada à nossa espera.
Além disso, Fernando trabalha como médico. Prefere as ervas aos comprimidos e cura a úlcera com plantas e ovo de pombo; mas prefere ainda a própria mão. Porque ele cura tocando. E contando, que é outra maneira de tocar."
Eduardo Galeano
Ele conta causos da linda gente do povo, da gente recém-criada, que ainda tem cheiro de barro; e também causos de alguns tipos extravagantes que ele conheceu, como aquele espelheiro que fazia espelhos e se metia neles, se perdia, ou aquele apagador de vulcões que o diabo deixou zarolho, por vingança, cuspindo em seu olho. Os causos acontecem em lugares onde Fernando esteve: o hotel que abria só para fantasmas, aquela mansão onde as bruxas morreram de chatice ou a casa de Ticuantepe, que era tão sombreada e fresca que a gente sentia vontade de ter, ali, uma namorada à nossa espera.
Além disso, Fernando trabalha como médico. Prefere as ervas aos comprimidos e cura a úlcera com plantas e ovo de pombo; mas prefere ainda a própria mão. Porque ele cura tocando. E contando, que é outra maneira de tocar."
Eduardo Galeano
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
MAPAS DA ALMA
"Os mapas da alma não têm fronteiras, e eu sou patriota de várias pátrias"
Eduardo Galeano
domingo, 26 de junho de 2011
LEVO MINHA LIBERDADE COMIGO
"Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar.
Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta -bagagem.
Ou seja: ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca."
Eduardo Galeano em, As Palavras Andantes
sexta-feira, 24 de junho de 2011
A PARTIDA
"Esta mulher está indo para o norte. Sabe que pode morrer afogada na travessia do rio, e de tiro, sede ou serpente na travessia do deserto.
Diz adeus aos filhos, querendo dizer até logo.
E indo embora de Oaxaca, ajoelha-se diante da Virgem de Guadalupe, num altarzinho do caminho, e roga o milagre:
- Não peço que você me dê nada. Só peço que você me ponha aonde tem."
Eduardo Galeano em, Bocas do Tempo
terça-feira, 21 de junho de 2011
FURTOS E RAPINAS
"As palavras perdem o seu sentido, enquanto perdem sua cor o mar verde e o céu azul, que haviam sido pintados pela gentileza das algas que jorraram oxigênio durante três bilhões de anos.
E a noite perde suas estrelas. Já existem placas de protesto cravadas nas grandes cidades do mundo.
Não nos deixam ver as estrelas.
Assinado: As pessoas.
E no firmamento apareceram muitas placas que clamam:
Não nos deixam ver as pessoas.
Assinado: As estrelas."
Eduardo Galeano, em Bocas do Tempo
domingo, 19 de junho de 2011
VIVER NO VENTO
"Vive no vento. Voa sempre, dorme voando.
Voando não se cansa nem se gasta. É de vida longa aos sessenta anos, continua dando voltas e mais voltas ao redor do mundo.
O vento anuncia de onde virá a tempestade e diz onde está a costa. Ele nunca se perde, nem se esquece do lugar em que nasceu; mas a terra não é seu assunto, e o mar tampouco. No chão, suas patas curtas caminham mal, e na água ele se aborrece.
Quando o vento o abandona, espera. Às vezes o vento demora, mas sempre volta: procura por ele, chama-o, e o leva. E ele se deixa levar, se deixa voar, com suas asas enormes planando no ar."
Eduardo Galeano, em Bocas do Tempo
PÁSSAROS DO MUNDO
"É o primeiro. Quando se aproxima o fim da noite, o desafinado rompe o silêncio. O desafinado, que jamais se cansa, desperta os mestres cantores. E antes da primeira luz, todos os pássaros do mundo iniciam sua serenata na janela, voando sobre as flores que se parecem com eles. Alguns cantam por amor à arte. Outros transmitem notícias, ou contam contos ou piadas, ou lançam discursos, ou proclamam alegrias. Mas todos, os artistas, os jornalistas, os contadores, os piadistas, os chatos e os maluquinhos se unem numa única algaravia, a plena orquestra.
Os pássaros anunciam a manhã? Ou cantando fazem a manhã?"
Eduardo Galeano em, Bocas do Tempo
sexta-feira, 17 de junho de 2011
MISSIONÁRIOS
"O pastor Miguel Brun me contou que há alguns anos esteve com os índios do Chaco paraguaio. Ele formava parte de uma missão evangelizadora. Os missionários visitaram um cacique que tinha fama de ser muito sábio. O cacique, um gordo quieto e calado, escutou sem pestanejar a propaganda religiosa que leram para ele na língua dos índios. Quando a leitura terminou, os missionários ficaram esperando.
O cacique levou um tempo. Depois opinou:
-Você coça. E coça bastante, e coça muito bem.
E sentenciou:
-Mas onde você coça não coça."
Eduardo Galeano
quinta-feira, 2 de junho de 2011
ESPAÇOS SAGRADOS
"Um refúgio?
Uma barriga?
Um abrigo onde se esconder
quando estiver se afogando na chuva,
ou sendo quebrado pelo frio,
ou sendo revirado pelo vento?
Temos um esplêndido passado pela frente?
Para os navegantes com desejo de vento,
a memória é um porto de partida."
Eduardo Galeano em, As Palavras Andantes
Espaços sagrados despertam meu olhar pro invisível,
a vida respeitada em sua fé, vivida em seus mistérios.
Suplicada em orações, atendida em milagres.
Romarias, peregrinações, revelações
mãos no cajado e no arado bradam no prado.
Desfilam rosários em santuários,
resistem, persistem e insistem guerreiros romeiros.
Na passeata eu sou beata, então me ata
aos passos Teus.
Infinito caminho seguimos sozinhos
se erramos os passos, se nos falta compasso,
esconjurios no escuro, eu juro e me curo, só vejo futuro
nos olhos de Deus.
Contemplação, oração, em comunhão, queremos a vida
sem muitos "nãos".
Deus não esquece, ouve minha prece e acontece
a redenção.
Ana
segunda-feira, 30 de maio de 2011
FALTA MUITO
"Vou vivendo as estações de meu destino...Falta muito o que andar. Existem luas para as quais ainda não lati e sóis nos quais ainda não me incendiei. Ainda não mergulhei em todos os mares deste mundo, que dizem que são sete, nem em todos os rios do Paraíso, que dizem que são quatro.
Em Montevidéu, existe um menino que explica:
- Eu não quero morrer nunca, porque quero brincar sempre."
Eduardo Galeano, Olivro dos abraços
sexta-feira, 27 de maio de 2011
TRAVESSIA
"Numa grande avenida de uma grande cidade latino-americana, alguém espera para atravessar. Plantado junto ao meio-fio, diante da incessante rajada de automóveis, o pedestre espera 10 minutos, 20 minutos,1hora.
Volta-se, então, e vê um homem encostado numa parede, fumando.
Pergunta-lhe:
- Como é que eu posso passar para o outro lado?
- Não sei. Eu nasci no lado de cá."
Eduardo Galeano, De pernas pro ar
quinta-feira, 26 de maio de 2011
O MAR
"Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!"
Eduardo Galeano, O livro dos Abraços
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