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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A ROTA DOS SALMÕES

"Pouco depois de nascer, os salmões abandonam seus rios e vão para o mar.
Em águas longínquas passam a vida, até se lançarem à longa viagem de regresso.
Do mar, remontam os rios. Guiados por alguma bússola secreta, nadam contra a corrente, sem se deter nunca, saltando através das cascatas e dos pedregais. Após muitas léguas, chegam ao lugar onde nasceram.
Voltam para parir e morrer.
Nas águas salgadas, cresceram muito e mudaram de cor. Chegam convertidos em peixes enormes, que do rosa pálido passaram ao laranja avermelhado, ou ao azul de prata, ou ao verde-negro.
O tempo passou, e os salmões já não são o que eram. Tampouco seu lugar é o que era. As águas transparentes de seu reino de origem e destino estão cada vez menos transparentes, e cada vez se vê menos o fundo de cascalhos e seixos. Os salmões mudaram e seu lugar também mudou. Mas eles levam milhões de anos acreditando que o regresso existe, e que não mentem as passagens de ida e volta."

Eduardo Galeano em, Bocas do Tempo.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

POBRES DO MUNDO





"As estatísticas dizem que são muitos os pobres do mundo, mas os pobres do mundo são muito mais do que os muitos que parecem que são.

A jovem pesquisadora Catalina Álvarez Insúa mostrou um critério útil para corrigir os cálculos:

- Pobres são os que têm a porta fechada - disse.

Quando formulou sua definição, Catalina tinha três anos de idade. A melhor idade para assomar-se ao mundo, e ver."

Eduardo Galeano, em Bocas do Tempo


sexta-feira, 24 de junho de 2011

A PARTIDA


"Esta mulher está indo para o norte. Sabe que pode morrer afogada na travessia do rio, e de tiro, sede ou serpente na travessia do deserto.

Diz adeus aos filhos, querendo dizer até logo.
E indo embora de Oaxaca, ajoelha-se diante da Virgem de Guadalupe, num altarzinho do caminho, e roga o milagre:
- Não peço que você me dê nada. Só peço que você me ponha aonde tem."

Eduardo Galeano em, Bocas do Tempo


terça-feira, 21 de junho de 2011

FURTOS E RAPINAS

"As palavras perdem o seu sentido, enquanto perdem sua cor o mar verde e o céu azul, que haviam sido pintados pela gentileza das algas que jorraram oxigênio durante três bilhões de anos.
E a noite perde suas estrelas. Já existem placas de protesto cravadas nas grandes cidades do mundo.
Não nos deixam ver as estrelas.
Assinado: As pessoas.
E no firmamento apareceram muitas placas que clamam:
Não nos deixam ver as pessoas.
Assinado: As estrelas."

Eduardo Galeano, em Bocas do Tempo



A HISTÓRIA QUE PODERIA TER SIDO

"Cristovão Colombo não conseguiu descobrir a América, porque não tinha visto e muito menos passaporte.
Pedro Álvares Cabral foi proibido de desembarcar no Brasil, porque podia contagiar de varíola, de sarampo, de gripe e outras pestes desconhecidas no país.
Hernan Cortez e Francisco Pizarro ficaram na vontade de conquistar o México e o Peru, porque não tinham licença para trabalhar.
Pedro de Alvarado bateu na Guatemala e voltou, sem entrar, e Pedro de Valdivia não conseguiu pisar terra do Chile porque não tinham atestado policial de nada-consta.
Os peregrinos de Mayflower foram devolvidos ao mar, porque na costa de Massachusetts não havia vagas de imigração disponíveis."

Eduardo Galeano, em Bocas do Tempo

domingo, 19 de junho de 2011

VIVER NO VENTO



"Vive no vento. Voa sempre, dorme voando.
Voando não se cansa nem se gasta. É de vida longa aos sessenta anos, continua dando voltas e mais voltas ao redor do mundo.
O vento anuncia de onde virá a tempestade e diz onde está a costa. Ele nunca se perde, nem se esquece do lugar em que nasceu; mas a terra não é seu assunto, e o mar tampouco. No chão, suas patas curtas caminham mal, e na água ele se aborrece.
Quando o vento o abandona, espera. Às vezes o vento demora, mas sempre volta: procura por ele, chama-o, e o leva. E ele se deixa levar, se deixa voar, com suas asas enormes planando no ar."

Eduardo Galeano, em Bocas do Tempo


PÁSSAROS DO MUNDO


"É o primeiro. Quando se aproxima o fim da noite, o desafinado rompe o silêncio. O desafinado, que jamais se cansa, desperta os mestres cantores. E antes da primeira luz, todos os pássaros do mundo iniciam sua serenata na janela, voando sobre as flores que se parecem com eles. Alguns cantam por amor à arte. Outros transmitem notícias, ou contam contos ou piadas, ou lançam discursos, ou proclamam alegrias. Mas todos, os artistas, os jornalistas, os contadores, os piadistas, os chatos e os maluquinhos se unem numa única algaravia, a plena orquestra.
Os pássaros anunciam a manhã? Ou cantando fazem a manhã?"

Eduardo Galeano em, Bocas do Tempo

quinta-feira, 2 de junho de 2011

ESPAÇOS SAGRADOS


"Um refúgio?
Uma barriga?
Um abrigo onde se esconder
quando estiver se afogando na chuva,
ou sendo quebrado pelo frio,
ou sendo revirado pelo vento?
Temos um esplêndido passado pela frente?
Para os navegantes com desejo de vento,
a memória é um porto de partida."          
                                           
Eduardo Galeano em, As Palavras Andantes 




Espaços sagrados despertam meu olhar pro invisível,
a vida respeitada em sua fé, vivida em seus mistérios.
Suplicada em orações, atendida em milagres.
Romarias, peregrinações, revelações
mãos no cajado e no arado bradam no prado.
Desfilam rosários em santuários,
resistem, persistem e insistem guerreiros romeiros.
Na passeata eu sou beata, então me ata
aos passos Teus.
Infinito caminho seguimos sozinhos
se erramos os passos, se nos falta compasso,
esconjurios no escuro, eu juro e me curo, só vejo futuro
nos olhos de Deus.
Contemplação, oração, em comunhão, queremos a vida
sem muitos "nãos".
Deus não esquece, ouve minha prece e acontece
a redenção.

Ana

sábado, 28 de maio de 2011

CASAS



Adoro casas, desde bem cedo aprendi com minha tia a apreciar antiquários, lojas de decoração,  "família vende tudo"... e nos finais de semana íamos felizes apreciar fachadas, como um "check list" do aprendizado, íamos de carro e mal percebia que mais do que o contorno da fachada ali se alicerçava meu gosto pela estética, meu fascínio pelas formas. Minha mãe lapidou meu instinto, me ensinou sobre esmero, cuidar, limpar, resgatar preciosidades de família, bordados antigos, toalhinhas de crochet, muito mais do que bem servir, muito mais do que mesa posta, uma família era estendida por sobre a mesa junto com a toalha de renda.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

NO MEIO DE TUDO


Por Fabrício Carpinejar em, Borralheiro

"No guichê da companhia aérea, sempre avanço sobre o computador do atendente, espichando o queixo e exigindo:

Corredor ou janela, não me deixe no meio, não quero o meio, abomino o meio.

O funcionário explicou que reservaria o lugar desejado, sem problema, que me acalmasse. Com a emissão do bilhete, terminou minha principal ansiedade, o corpo já deslizava com rodinhas para a sala de embarque.

Demonstro preconceito mesmo com a localização, uma exigência pessoal em cada partida, tão importante quanto lembrar em acumular as milhagens no cartão.

O meio é o inferno do céu. Para quem viaja excessivamente como eu, é humilhante ficar prensado entre um que dorme e o outro que também dorme, desconhecidos prestes a desabar em meus ombros e fazer gargarejo do ar refrigerado. Comprovado cientificamente que o passageiro encurralado entre as pontas é incapaz de cochilar. Atordoado como uma babá cuidando de gêmeos. Sofre de hipertensão arterial, encolhido, cacto na chuva, pronto a se defender dos lapsos dos seus vizinhos. Não poderá se mexer durante  as longas horas do trajeto, muito menos trocar de livro e buscar seu laptop. Ou ele pega tudo de que necessita no momento em que entra, ou esquece, inútil mudar de ideia. Até para mijar, pensará como acordar seus obstáculos. A voz do comandante é a única abertura com o andamento da viagem.



segunda-feira, 23 de maio de 2011

FONTANA DI TREVI


Me valerei do texto de Fabrício Carpinejar, em seu divertido livro Borralheiro.

"É achar uma fonte e pretendo viciá-la em desejos. Intoxicá-la de promessas. Chantageá-la com meus pedidos absurdos. Eu me transformei num traficante de milagres, num aliciador de degraus e lajes.

Não tenho pudor. Às vezes, cometo gafes e despejo a niqueleira em santuários de Nossa Senhora ou em piscinas de plástico. Qualquer água parada é motivo para depositar os centavos. Persigo os tanques como um Aedes aegypti da superstição.

Assim como crianças gostam de lançar farelos de pão aos patos, jogo moedas aos meus sonhos.Todo lugar é Roma, todo aquário de pedra é Fontana di Trevi. É uma fixação messiânica. Os guardadores de carro que me perdoem, mas não nutro simpatia pela superfície, deixo as economias para as profundezas e os ralos; os santos têm que mergulhar, abrir os mariscos de metais, lustrar efígies.



domingo, 22 de maio de 2011

EXCURSÃO X INCURSÃO



Definitivamente minha família não faz o perfil de um excursionista, nosso guia não finca bandeira, já vamos com a lição feita. Sempre viajo antes, me abasteço de todas as informações bem antes de chegar ao destino, gosto de journals, de papeizinhos com dicas de amigos, guias, muitos mapas espalhados pelo carro, e me abasteço de cupons de descontos.

GPS é um item a parte, fora do Brasil eles funcionam e por isso a única outra voz que permitimos ditar o caminho a seguir. É como uma entidade, deve ser prima da voz do aeroporto, fantasio que ambas vêm de uma  mesma família dedicada à missão de apontar o caminho sem o comprometimento de dar as caras e seguem felizes e realizadas no cumprimento do dever. Não se misturam por isso não as conhecemos, pouco afeitas às vaidades, as primas satisfazem-se só pelo nosso reconhecimento e gozam de nossa simpatia recíproca já que falam mas não perguntam, oferecem mas não aparecem, perfeitas e discretas, devemo-lhes  uma afinidade infinita por representarem as vozes das férias. Adoramos burlar suas dicas já que seguimos também por outro guia imprescindível, a estrada a nossa frente e as pistas de dentro e de fora que, com bom feeling vamos aprendendo a seguir.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

MINHA VIAGEM É PELA CASA

Particularmente gosto do conforto, como boa canceriana só saio de casa arrastada ou por um justo motivo. Estou bem onde conheço. Onde me sinto em casa. Aprecio detalhes. Gosto de estratégias: vasinhos de flores recém colhidas mostram que alguém esteve lá, alguém cuida. Gosto de histórias e gosto de lugares que tenham histórias. Fumaças saindo de chaminés, cheiro de lenha queimando indicam, de novo, que alguém está lá, zelando. Posso estar equivocada mas para mim o belo e o bom caminham com afinidade. Comungam uma promessa de felicidade.

Conforto se encontra na simplicidade e na excentricidade, confesso que adoro qualquer um de seus leques, já fiquei em hotéis onde se era possível escolher a carta de travesseiros, já fui surpreendida na porta de um chalé, numa tarde em que chovia cântaros, por um guarda-chuva enorme, delicadamente acostado na esquadria da porta, antecipando-se, a mim e a meu problema como só ocorre às mães e aos anjos. Na exata prontidão diante dos nossos desejos e pensamentos.  E, satisfazendo por completo a máxima que em casa, assim como em hotéis, eu  realmente aprecio: "Dê aos seus hóspedes o que eles nem sabem que querem."

Me ocorre uma excentricidade que uma vez li, anotei mas vou ficar devendo a fonte, usarei para ressaltar o primor de lugares únicos, de inigualável luxúria capazes de inebriar. Eles existem ... :"E diz a lenda que, se por acaso um hóspede dos Rothschild em seu château na França, dormisse com o braço para fora da cama, amanhecia com as unhas feitas.".


quarta-feira, 18 de maio de 2011

QUEM TERIA SIDO A BELA ANGÉLICA?

Mais uma vez Mario Prata...

Gosto da curiosidade que o texto desperta e desvela. Devemos esse olhar curioso ao conhecido, olhar de turista, olhar benevolente de quem vê e se deslumbra por ser a primeira vez, por ser desconhecido, devemos esse humor e amor ao cotidiano, ao que nos cerca. Que a intimidade não impeça o deslumbramento. Que o dia a dia não tolha novas ou possíveis descobertas. Resgatemos a capacidade que nos foi dada na infância a de se surpreender diante do esperado.

É por isso que gosto dos que possuem olhos encantados para estes a rotina não sobrepuja a retina.

Gosto de  São Paulo. Mesmo estando no exterior, fico com saudades do congestionamento da Consolação. Adoro as ruas de São Paulo. Gosto, principalmente, dos nomes delas. Mas fico intrigado. Nunca sei quem foram aquelas pessoas que hoje são ruas.

Por exemplo, a Angélica. Que mulher foi esta que deu o nome para uma rua tão importante, movimentada e bonita? Imagino que a Angélica deveria ser uma mulher loira, de olhos claros e pernas bem compridas. Não sei porque, muito gostosa, a Angélica. Alguma ela deve ter aprontado para virar rua.


terça-feira, 17 de maio de 2011

FÉRIAS? É MELHOR VOLTAR LOGO PARA CASA!

Nem sempre as férias são sinônimo de descanso e dias perfeitos, diferentemente do que ditam os guias, do que sugerem as fotos, contamos com as intempéries do tempo, com as dificuldades da língua, às vezes a culinária local é bastante exótica à vista e mais ainda ao paladar.

É certo que estamos com uma disposição que nos falta no cotidiano, afinal estamos em férias, mas ás vezes o que era para ser um destino de descanso acaba se tornando uma aventura, no pior dos casos um verdadeiro safari...nesta altura seus trajes e disposição começam a se inadequar...

Somos desavisados, estrangeiros e se por um lado parece que o passaporte de turista por vezes nos redime os erros, por outros o guia que nos cerceia não é aquele, de papel, pela qual pagamos caro pelas melhores dicas, nos servimos de guias espirituais que se esfalfam por conta da aventura perigosa que em férias nos permitimos cumprir...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

OUTRAS VIAGENS

Sou do tempo em que viajar era uma saga, um misto de desbravamento bandeirante e peregrinação religiosa...

E veja bem, não falo de nenhum lugar exótico em algum recôncavo escondido do mundo; a saber, acho que esses lugares nem existiam; em minha fantasia, eles foram criados e gentilmente ofertados com o advento da internet.

Falo de longas e intermináveis viagens à São Roque (rumo ao sítio de meu avô), falo de viagens de férias com destino ao interior de São Paulo, e falo tb de viagens litorâneas a caminho de São Vicente para o encontro com tios e primos e delicioso direito à banhos de mangueira num fim da tarde em pleno quintal!

Em São Vicente, a história começava no "tentar" ligar. Sou do tempo em que precisávamos de um auxílio da telefonista para isso, e era quase uma incógnita o quanto isso iria durar. Caso a sorte ajudasse, devidamente comunicada nossa intenção, seguíamos viagem...